
Com um atraso de 10 anos em relação à concorrência internacional, os agricultores brasileiros finalmente iniciaram o primeiro plantio de milho transgênico da nossa história.
A espectativa do setor é que seja cultivado, na safra 2008/09, em torno de 400 mil hectare o que equivale aproximadamente a 4% da área total de milho produzido no país.
Produzido e comercialmente em mais de 100 países, com uma produção total estimada em 705 milhões de toneladas por ano, o milho é uma das mais importantes fontes de alimento no mundo e é considerado o insumo básico para a produção de uma ampla gama de produtos. Na cadeia produtiva de suínos e aves consomem-se aproximadamente 70 a 80% do milho produzido no Brasil..
O Brasil é o terceiro maior produtor mundial de milho com uma produção de aproximadamente 38 milhões de toneladas no ano de 2005, atrás somente dos Estados Unidos da América (282 milhões de toneladas) e da China (139 milhões de toneladas)
Nos últimos anos, os insetos têm-se tornado pragas limitantes na cultura do milho no Brasil, em particular insetos da ordem lepidóptera como a lagarta-do-cartucho, lagarta-da-espiga e lagarta-do-colmo. Estima-se que elas possam causar prejuízos de até 34% na produção total de milho. Com o aumento da área cultivada com o milho na chamada “safrinha” (três milhões de hectares), fechando o ciclo de várias pragas e doenças, o problema se agravou. Em algumas áreas do Centro-Oeste brasileiro, são necessárias dezenas de pulverizações com agrotóxicos em um único ciclo da cultura, colocando em risco a saúde do consumidor, do trabalhador rural, do meio ambiente e a sustentabilidade econômica da atividade.
O Brasil é o terceiro maior consumidor de agrotóxicos do mundo. Possuímos, hoje, 142 produtos registrados para milho, 107 só para as lagartas. Vários casos de resistência pelo uso constante e indiscriminado de inseticidas na cultura do milho já existem no Brasil. Além disso, um dos fatores que mais afeta a saúde dos nossos agricultores é o uso de agroquimicos, responsáveis pela intoxicação de um milhão de pessoas anualmente.
O milho transgênico consiste em uma proposta alternativa para o controle das principais pragas da cultura da cultura. Ela baseia-se na utilização de híbridos de milho derivados de linhagem geneticamente modificada para resistir ao ataque dessas lagartas. Para isso, foi inserido o gene de Bacillus thuringiensis que é a fonte dos genes de resistência nas chamadas plantas-Bt, o mesmo utilizada em formulações comerciais do bio-inseticida B. thuringiensis, de amplo uso na agricultura.
O milho transgênico é largamente cultivado e comercializado na Argentina, Austrália, Canadá, China, União Européia, Japão, Coréia, Filipinas, México, África do Sul, Suíça, Taiwan, Uruguai, Estados Unidos da América, entre outros.
O B. thuringiensis, presente em todos os continentes, é uma bactéria gram-positiva e entomopatogênica, aeróbica ou facultativamente anaeróbica naturalmente encontrada no solo, inicialmente isolada no Japão por Ishiwata e descrita formalmente por Berliner em 1915. Esse microrganismo forma cristais de endotoxinas, proteínas com ação inseticida que atuam antes e durante a fase de esporulação do seu ciclo de vida. Atualmente, existem várias coleções no mundo que contêm milhares de isolados de B. thuringiensis, sendo as várias raças classificadas com base em seu espectro de ação, suas toxinas cristalinas e suas similaridades genéticas.
Em 1901, pesquisadores descobriram que uma epidemia de mortalidade de bicho-da-seda no Japão era devido a uma bactéria. Doze anos depois, na Alemanha, o pesquisador Berliner conseguiu isolar e caracterizar essas bactérias, batizando-as de Bacillus (por sua forma cilíndrica) thuringiensis (em homenagem à região alemã da Turíngia). Em 1938, na França, formulações, contendo colônias dessas bactérias, foram vendidas como inseticida biológico e, em 1954, seu modo de ação foi descoberto. Hoje são 50 diferentes famílias descobertas e organizadas por um código numérico. Como exemplo temos a família Cry1, que atua sobre lepidópteros (borboletas); a Cry3, que atua sobre coleópteros (besouros); e a Cry4, que atua sobre dípteros (moscas e mosquitos), sendo inclusive utilizada no controle biológico de mosquitos vetores de doenças como a dengue.
O que torna as proteínas do Bacillus thuringiensis eficientes e seguras para seu uso como bio-pesticida é seu modo de ação altamente específico. Cada proteína atua de maneira singular em determinada ordem de insetos. Com base em estudos científicos e avaliações que comprovam esta especificidade, pode-se afirmar que estas proteínas não apresentam ação inseticida em insetos benéficos ou inimigos naturais. Por isso, a tecnologia Bt é uma forte aliada à proteção do meio ambiente. Para liberar o núcleo inseticida é necessário que a proteína, em forma de cristal, seja primeiramente ingerida pelo inseto para depois, em ambiente de pH alcalino, ser quebrada em pontos específicos, que liberam este núcleo ativo, ou seja, a molécula tóxica.
No sistema digestivo de humanos e animais superiores, o ambiente é de pH ácido e a proteína é completamente degradada em minutos, tornando-se inativa. Desta forma, a luz da ciência atual, a proteína não apresenta nenhum efeito em animais superiores ou humanos. A proteína é tóxica somente para os insetos-alvo citados, especificamente para lepidópteros (lagartas), os quais possuem, no seu intestino, receptores específicos para essa proteína. Mamíferos não possuem tais sítios de ligação e, portanto, seres humanos, animais e outros organismos não-alvos
De acordo com a CTNBio, históricos de uso destas variedades transgênicas no mundo, aponta para grande acúmulo de informações científicas confiáveis que indicam ser esta variedade tão segura para o meio ambiente e para a saúde humana e animal quanto as cultivares de milhos híbridos que vêm sendo utilizadas atualmente.
A mesma fonte aponta que após dez anos de uso em diversos países, não foi detectado problema algum para a saúde humana e animal ou para o meio ambiente que possa ser atribuído a milhos transgênicos.
É necessário enfatizar, de acordo com os especialistas, que a falta de efeitos negativos resultantes do cultivo de plantas transgênicas de milho não quer dizer que eles não possam vir a acontecer. Risco zero e segurança absoluta não existem no mundo biológico, muito embora já exista um acúmulo de informações científicas confiáveis e um histórico seguro de uso de dez anos que permite afirmar que o milho transgenico Bt é tão seguro quanto as versões convencionais. No entanto, é fundamental que os produtores destas cultivares monitore sistematicamente seus cultivos, observando os vários estágios fonológicos das plantas, o comportamento e a dinâmica do ambiente e, no primeiro sinal de não conformidade, comunicar os eventos as autoridades competente.
De forma geral, a adoção da biotecnologia transgênica na agricultura cresce, desde1996, ao ritmo de 10-12% ao ano, atingiu em 2007 a marca de mais de 114 milhões de hectares espalhados por 23 países, envolvendo cerca de 12 milhões de agricultores em todo o mundo.
De acordo com a comunidade cientifica mundial uma tecnologia que permite a pequenos, médios e grandes agricultores reduzir os custos de produção entre 10 a 15%, aumentar a produtividade até 25%, reduzir em até 60% o uso de agrotóxicos, reduzir a emissão de dióxido de carbono em função da diminuição do uso de equipamentos agrícolas e reduzir até 90% o teor de micotoxinas, como a fumonisinas, altamente carcinogênicas para os seres humanos, não pode deixar de ser vista como uma tecnologia sustentável.